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O Passageiro

The Commuter
 O Passageiro
(Excelente)

Drama, Suspense, Crime

  • Estreia: 8 de Março de 2018
  • País / Ano de Produção: EUA, Reino Unido / 2018
  • Duração: 135 min.

O Passageiro | Crítica

Jaume Collet-Serra faz seu filme com Liam Neeson mais delirante e decidido

Dos filmes que o cineasta Jaume Collet-Serra realiza em parceria com Liam Neeson, como Sem Escalas e Noite sem Fim, O Passageiro (The Commuter) parece o mais rebuscado. Arrojados saltos temporais marcam, em forma de montagem, o início da trama - para mostrar os dramas do protagonista com a economia doméstica da família e para pontuar sua rotina pegando sempre o mesmo trem para o trabalho. Ao mesmo tempo, há um flerte com arquétipos de dramaturgia (o personagem de Neeson leva romances clássicos para ler no trem e o filme traça uma leve sugestão de que os muitos coadjuvantes de O Passageiro também podem ser tipificados dessa forma).

Essas duas sugestões de início, porém - tanto a narrativa não-linear quanto a metalinguagem -, não se consumam ao longo de O Passageiro. A construção de personagens coadjuvantes como tipos, aliás, que poderiam fazer do filme de Collet-Serra uma espécie de rival de O Assassinato no Expresso do Oriente nesta temporada, é o ponto fraco do longa; no trem há o escroto de Wall Street, a imigrante latina, a adolescente perdida, os tipos realmente se multiplicam, mas eles nunca ganham uma autonomia dramatúrgica, nem deixam de ser peças funcionais de um jogo de gato-e-rato.

Essas constatações não tiram os méritos de O Passageiro, porque afinal é o dispositivo da ação que interessa a Collet-Serra, um diretor cada vez mais apurado no fazer de um cinema personalista que saiba controlar muito bem o ambiente, o tom e a intensidade das arenas em que organiza esses jogos. Há um espaço, um protagonista-herói, um problema a ser resolvido. Mesmo em Águas Rasas isso ficava muito evidente, um filme que Collet-Serra usou para limpar o palato antes de retomar o trabalho com Neeson. De todos os filmes da dupla, nenhum evidencia tanto a figura do ator quanto O Passageiro.

Não faz tanta diferença saber quem é o personagem que Neeson interpreta, um ex-policial que virou vendedor de seguros e precisa solucionar um crime no trem, contra o relógio, para salvar uma pessoa na viagem e também sua própria família. A informação primordial é o que está em risco e seu caráter moral: Collet-Serra enquadra sempre que pode a mão esquerda de Neeson segurando em barras para associar a aliança dele (o casamento como a pedra fundamental da moralidade) ao perigo e às tentações que Neeson enfrenta. Não é por acaso que os tipos secundários de O Passageiro sejam tão superficiais; só há olhos para o protagonista.

De certo modo, Collet-Serra se aproxima menos de Agatha Christie do que de Alfred Hitchcock aqui, mais uma vez colocando o homem de meia idade (mais ou menos) ordinário no lugar errado na hora errada, tendo que salvar o dia e ao mesmo tempo defender seu caráter. Com um jogo inédito de lentes, chamado Cinefade, o cineasta inclusive consegue tirar e colocar o fundo em foco sem precisar alterar o foco que já está no corpo de Neeson em primeiro plano. O ator aparece sempre como pivô da organização da ação, frequentemente como observador dessa ação em primeira pessoa (como no empolgante plano sequência da luta), e nesse sentido O Passageiro já é o grande exemplo de 2018 de como o cinema de ação se aproximou cada vez mais da estética e da dinâmica dos games de ação e tiro, nos úiltimos anos.

O Passageiro não deixa de ser mais um excelente exemplo do vigor que os filmes B preservam em si hoje, e ao mesmo tempo representa uma evolução do cinema feito por Collet-Serra em direção a um impressionismo no registro. Porque se aquelas sugestões rebuscadas do início são deixadas de lado em O Passageiro, o cineasta as substitui por um trabalho bastante vertigonoso de fotografia, tirando e colocando coisas em foco para nos alocar na perspectiva de Neeson (que afinal está buscando focos atrás de respostas para a trama) ao mesmo tempo em que desfila informações visuais, de cores e texturas, para nos manter sempre em movimento naquele mundo fixo de dentro dos vagões.

O resultado é um filme que, no papel, pode parecer muito previsível e manjado, mas que se resolve na imagem como um delírio renovado instante a instante, e que plenamente se sustenta e transcende ao confiar na potência de eleger um ponto de vista decidido, obsessivo.

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